As Verdades do Amor
O amor é a matéria-prima de toda literatura. Aliás, toda a arte o tem por escopo e meta. Todas elas, na busca da beleza (ou na denúncia da sua ausência), o fazem porque o belo, dentre todos os objetos, é o mais digno de amor, o mais amável. Seu juramento, portanto, não é prestado no altar da beleza, mas na fogueira da paixão, à qual ele arrasta todos os magos e bruxas da imagem, do som ou da forma.
Nas belas letras, a coisa não é diferente: romancistas, contistas, poetas, enfim, todos os artífices da palavra a ele dirigem os seus discursos - sem uma única exceção. Há os que descem às minudências, trazendo ao verbo as mínimas expressões da carícia, as menores ondulações do desejo. Há quem o amplifique em belos versos ou em frases grandiosas, exaltando-lhe as aparições heróicas, sempre coroadas com a volúpia da posse, a placidez da renúncia ou a coragem do sacrifício. Em verdade, até mesmo aqueles que o desprezam ou omitem fazem do seu silêncio discurso, sugerindo pela indiferença a sua nulidade ou mesmo desimportância ante as questões mais urgentes da ordem do dia.
Além destes, há os que o profanam a toda voz, e não são poucos: “Falas de amor, e eu ouço tudo e calo / O amor da humanidade é uma mentira” (Augusto dos Anjos). Contudo, mesmo tais anacoretas do egoísmo solitário o trazem consigo, como desilusão ou promessa, lembrança longínqua ou vestígio de desaparição. A mágoa de não ser amado é, em si mesma, amor: amor magoado. E o cético, ao descrer do homem e da vida, projeta o seu amor como apoteose para além da morte, fazendo-o entrar em cena quando a carne vira pó: “De uma caveira para outra caveira / Do meu sepulcro para o teu sepulcro”.
Desta forma, para falar do amor a um público tão vasto, com as mais diversas tomadas de posição em relação ao tema, é preciso que se procure aquela pequena zona de consenso existente em qualquer discussão; afinal, até para a discórdia universal, é preciso que todos concordem numa coisa: que estão discordando. No nosso caso, tal consenso ao avesso talvez se reduza à experiência universal da falta de amor. Do desamor niilista, à apatia suicida, ao amor-próprio narcisista, ao egoísmo capitalista, ao erotismo fetichista, ao orgulho nacionalista, à amizade aristotélica, à paixão platônica, à compaixão budista, à devoção islâmica, à caridade cristã – nestas e em outras formas de amor, há sempre algo que falta: seja o próprio amor na sua totalidade, seja uma qualidade a mais, uma intensidade ou grau mais alto, uma duração, uma virtude necessária, um limite ou ponto de equilíbrio, um princípio ou fim - há sempre uma carência do amor e no amor.
Por estas e outras razões, a relação entre o Amor e a Verdade tem de ser escrita no plural. Não por causa do “Amor à Verdade” (Philo Sophia); esta, ainda que assuma formas tão numerosas quanto os filósofos que houvera ou que haverá, será sempre uma e a mesma. Já as “Verdades do Amor”, estas sim, serão tantas quantas forem as estrelas do céu.
Porém, e para desespero do poeta, não faltará quem queira impugnar o tema, com as mais variadas razões. Para quem o descrê por completo, a única verdade possível sobre o amor é o silêncio. Ao amante apaixonado, afigura-se perigoso ouvir verdades sobre o amor, pois estas podem revelar-lhe a fragilidade do amor ou a imperfeição do ser amado. O sedutor incansável temerá que escancaremos as mentiras e exageros com os quais ele urde as suas façanhas. O terapeuta nos dirá que o amor não se dirige à verdade, mas ao sonho, e que alimentar a fantasia é vital para suportar com paciência a crueza da vida. O humanista prático censurará quem perde o seu tempo com “canções de amor”, quando as dores a aplacar, as lágrimas a enxugar, os sorrisos a incutir e os corações a acender pedem que o amor desça dos lábios para as mãos, que vire verdade através de ação.
Houve o tempo em que o poeta era o porta-voz legítimo da alma do povo. Mais que isso, ele cumpria o papel de núncio divino, revelando em êxtases dionísicos a origem do mundo, a genealogia dos deuses ou o sentido da vida. Hoje, porém, quando todos os atores desta “sociedade do espetáculo” têm a sua fala, até mesmo o coro anônimo dos excluídos; num momento em que a opinião pública se sobrepõe ao pensamento individual; num estado de coisas em que a “Voz do Povo” deixou de ser a “Voz de Deus” e tornou-se a “ditadura da maioria”, ao poeta só parece restar o silêncio total ou o monólogo de si para si.
“Os poetas mentem muito”, já dizia um velho sábio grego, o que parece ser voz geral nos dias de hoje. Mas eis que aquele sábio, além de filósofo, era poeta. Logo, este desmentido da poesia não passou de uma grande mentira, de maneira que tudo volta a ser como era. Ou melhor, deveria voltar. Pois que, nesta densa atmosfera de “morte de Deus”, “morte do homem”, “pós-capitalismo”, “fim dos tempos”, a única saída para o homem parece ser o “Retorno ao Princípio”. Um tal retorno, infelizmente, já está em vias de ocorrer, da pior forma, e por força da coisas: a “Idade Mídia”, com seu excesso de imagens, não passa de uma Idade Média ao avesso, uma escuridão fosforecente. E o mais grave é que, após Hiroshima e Nagasaki, diz-se, iniciou-se a Pós-Modernidade, a qual, no fechar do círculo, pode dar lugar a uma nova Pré-História, se acaso sobreviverem alguns primatas sem pêlos para contar o caso.
No entanto, a esperança ainda não partiu. E ela nos ensina que existem vários caminhos para o retorno ao princípio. Um deles é confiado ao poeta. Em sua visão das coisas, diz o poeta que “no princípio era o Amor”. Quer no abraço de Céu e Terra, quer nas núpcias de Ísis e Osíris, quer na Criação de Adão (em que o Deus solitário o faz à sua imagem), em qualquer destas versões o amor está na gênese de todas as coisas e seres. Ao poeta de hoje não mais incumbe recontar esta origem, mas propor um novo começo a nós que aqui estamos, à nossa civilização decadente.
E qual seria tal proposta, tal começo? Se todos hoje dirigem as suas censuras ao poeta, só lhe resta seguir o conselho de Tobias Barreto, e das pedras que lhe atirarem construir um altar. Para tanto, não é preciso que o poeta se cale, para que só falem os homens. Ao contrário, a ele cabe, doravante, emprestar a sua voz a todos os que têm algo a dizer. Que o velho “discurso do Eu lírico” possa dar lugar a uma “lírica do Eu e Tu”, que o verso sirva ao diálogo. Afinal, só poderão resistir as tais “Verdades do Amor”, se os diversos amores se encontrarem, e as diversas verdades se amarem num abraço universal.