O Corvo e a Fênix


25/04/2008


  • O Boêmio e o Poeta
  • Bebe o vinho que pousa à tua frente
    Qual se fora a mais bela das mulheres
    Prova, inala, degusta se quiseres
    Traz o cálice ao lábio em beijo quente
  • Se um tal gozo não for suficiente
    Pensa que à tua frente há mil mulheres
    Ávidas por provar-te, em mil misteres
    Como se foras tu a taça ardente
  • Pensa ainda, se tal não for bastante
    Que não és mais um mísero bacante
    Mas que o próprio deus Baco em ti é converso
  • Ainda assim, tu não hás de compreender
    Que só o poeta, no êxtase do Ser
    É o deus, o homem, o vinho, o amor e o verso
  • Thiago El-Chami

Escrito por Thiago El-Chami às 17h13
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23/04/2008


As Verdades do Amor

 

O amor é a matéria-prima de toda literatura. Aliás, toda a arte o tem por escopo e meta. Todas elas, na busca da beleza (ou na denúncia da sua ausência), o fazem porque o belo, dentre todos os objetos, é o mais digno de amor, o mais amável. Seu juramento, portanto, não é prestado no altar da beleza, mas na fogueira da paixão, à qual ele arrasta todos os magos e bruxas da imagem, do som ou da forma.

Nas belas letras, a coisa não é diferente: romancistas, contistas, poetas, enfim, todos os artífices da palavra a ele dirigem os seus discursos - sem uma única exceção. Há os que descem às minudências, trazendo ao verbo as mínimas expressões da carícia, as menores ondulações do desejo. Há quem o amplifique em belos versos ou em frases grandiosas, exaltando-lhe as aparições heróicas, sempre coroadas com a volúpia da posse, a placidez da renúncia ou a coragem do sacrifício. Em verdade, até mesmo aqueles que o desprezam ou omitem fazem do seu silêncio discurso, sugerindo pela indiferença a sua nulidade ou mesmo desimportância ante as questões mais urgentes da ordem do dia.

Além destes, há os que o profanam a toda voz, e não são poucos: “Falas de amor, e eu ouço tudo e calo / O amor da humanidade é uma mentira” (Augusto dos Anjos).  Contudo, mesmo tais anacoretas do egoísmo solitário o trazem consigo, como desilusão ou promessa, lembrança longínqua ou vestígio de desaparição. A mágoa de não ser amado é, em si mesma, amor: amor magoado. E o cético, ao descrer do homem e da vida, projeta o seu amor como apoteose para além da morte, fazendo-o entrar em cena quando a carne vira pó: “De uma caveira para outra caveira / Do meu sepulcro para o teu sepulcro”.  

Desta forma, para falar do amor a um público tão vasto, com as mais diversas tomadas de posição em relação ao tema, é preciso que se procure aquela pequena zona de consenso existente em qualquer discussão; afinal, até para a discórdia universal, é preciso que todos concordem numa coisa: que estão discordando. No nosso caso, tal consenso ao avesso talvez se reduza à experiência universal da falta de amor. Do desamor niilista, à apatia suicida, ao amor-próprio narcisista, ao egoísmo capitalista, ao erotismo fetichista, ao orgulho nacionalista, à amizade aristotélica, à paixão platônica, à compaixão budista, à devoção islâmica, à caridade cristã – nestas e em outras formas de amor, há sempre algo que falta: seja o próprio amor na sua totalidade, seja uma qualidade a mais, uma intensidade ou grau mais alto, uma duração, uma virtude necessária, um limite ou ponto de equilíbrio, um princípio ou fim - há sempre uma carência do amor e no amor.

Por estas e outras razões, a relação entre o Amor e a Verdade tem de ser escrita no plural. Não por causa do “Amor à Verdade” (Philo Sophia); esta, ainda que assuma formas tão numerosas quanto os filósofos que houvera ou que haverá, será sempre uma e a mesma. Já as “Verdades do Amor”, estas sim, serão tantas quantas forem as estrelas do céu. 

Porém, e para desespero do poeta, não faltará quem queira impugnar o tema, com as mais variadas razões. Para quem o descrê por completo, a única verdade possível sobre o amor é o silêncio. Ao amante apaixonado, afigura-se perigoso ouvir verdades sobre o amor, pois estas podem revelar-lhe a fragilidade do amor ou a imperfeição do ser amado. O sedutor incansável temerá que escancaremos as mentiras e exageros com os quais ele urde as suas façanhas. O terapeuta nos dirá que o amor não se dirige à verdade, mas ao sonho, e que alimentar a fantasia é vital para suportar com paciência a crueza da vida. O humanista prático censurará quem perde o seu tempo com “canções de amor”, quando as dores a aplacar, as lágrimas a enxugar, os sorrisos a incutir e os corações a acender pedem que o amor desça dos lábios para as mãos, que vire verdade através de ação. 

Houve o tempo em que o poeta era o porta-voz legítimo da alma do povo. Mais que isso, ele cumpria o papel de núncio divino, revelando em êxtases dionísicos a origem do mundo, a genealogia dos deuses ou o sentido da vida. Hoje, porém, quando todos os atores desta “sociedade do espetáculo” têm a sua fala, até mesmo o coro anônimo dos excluídos; num momento em que a opinião pública se sobrepõe ao pensamento individual; num estado de coisas em que a “Voz do Povo” deixou de ser a “Voz de Deus” e tornou-se a “ditadura da maioria”, ao poeta só parece restar o silêncio total ou o monólogo de si para si.

“Os poetas mentem muito”, já dizia um velho sábio grego, o que parece ser voz geral nos dias de hoje.  Mas eis que aquele sábio, além de filósofo, era poeta. Logo, este desmentido da poesia não passou de uma grande mentira, de maneira que tudo volta a ser como era. Ou melhor, deveria voltar. Pois que, nesta densa atmosfera de “morte de Deus”, “morte do homem”, “pós-capitalismo”, “fim dos tempos”, a única saída para o homem parece ser o “Retorno ao Princípio”. Um tal retorno, infelizmente, já está em vias de ocorrer, da pior forma, e por força da coisas: a “Idade Mídia”, com seu excesso de imagens, não passa de uma Idade Média ao avesso, uma escuridão fosforecente. E o mais grave é que, após Hiroshima e Nagasaki, diz-se, iniciou-se a Pós-Modernidade, a qual, no fechar do círculo, pode dar lugar a uma nova Pré-História, se acaso sobreviverem alguns primatas sem pêlos para contar o caso.

No entanto, a esperança ainda não partiu. E ela nos ensina que existem vários caminhos para o retorno ao princípio. Um deles é confiado ao poeta. Em sua visão das coisas, diz o poeta que “no princípio era o Amor”. Quer no abraço de Céu e Terra, quer nas núpcias de Ísis e Osíris, quer na Criação de Adão (em que o Deus solitário o faz à sua imagem), em qualquer destas versões o amor está na gênese de todas as coisas e seres. Ao poeta de hoje não mais incumbe recontar esta origem, mas propor um novo começo a nós que aqui estamos, à nossa civilização decadente.

E qual seria tal proposta, tal começo? Se todos hoje dirigem as suas censuras ao poeta, só lhe resta seguir o conselho de Tobias Barreto, e das pedras que lhe atirarem construir um altar. Para tanto, não é preciso que o poeta se cale, para que só falem os homens. Ao contrário, a ele cabe, doravante, emprestar a sua voz a todos os que têm algo a dizer. Que o velho “discurso do Eu lírico” possa dar lugar a uma “lírica do Eu e Tu”, que o verso sirva ao diálogo. Afinal, só poderão resistir as tais “Verdades do Amor”, se os diversos amores se encontrarem, e as diversas verdades se amarem num abraço universal.

Escrito por Thiago El-Chami às 16h56
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Um velho jeito novo para o que nunca muda

 

Os torcedores do Fluminense de Feira Futebol Clube, time do interior baiano, numa atitude de extrema revolta, atiraram pipocas aos jogadores quando estes se dirigiram ao vestiário, após o décimo empate do time em doze jogos. Talvez o tenham feito por não possuírem nada mais contundente para arremessar aos incompetentes desportistas; ou, quiçá, temeram a fatal represália do efetivo policial, que estava próximo. Em que pese a banalidade do motivo ou da forma, o fato é que estes ilustres populares, sem disto se aperceberam, indicaram uma alternativa para a ação política que, se universalizada, resolveria todos os problemas que atualmente colocam este pequeno globo azul na eterna iminência de uma hecatombe nuclear.

O fato, em si, é absolutamente insignificante: pipocas e futebol. Mas os fatos são, por natureza, insignificantes, ou melhor: as significações não são factuais. Fatos não querem dizer nada, fatos não dizem nada, fatos não significam; no máximo, são significados. Houve o tempo em que um traçado diferente na asa do pavão representava augúrio de grandes tragédias; hoje em dia, nem mesmo os gritantes sinais de guerra retiram-nos da ilusão de que a sociedade capitalista é uma grande colônia de férias.

Mas, voltemos às pipocas. Paralisações são sempre muito danosas; passeatas convulsionam um trânsito já caótico e violento por suas próprias forças; o voto de protesto é um deixa-estar que facilita aqueles que estão na peleja em causa própria. Numa palavra, todas as manifestações práticas do pensamento político têm lá a sua quota de nocividade social, apesar das inumeráveis e honrosas justificativas éticas às quais endosso plenamente.

Contudo, uma análise política profunda e circunstanciada nos mostrará que pipocas são armas meta-políticas de eficácia transcendental. Brancas como a pomba, elas são antes armas da paz do que da guerra, e por essa razão vão além de política. A política, disse Foucault, é a continuação da guerra por outros modos. A guerra entre os homens, por sua vez, é um prolongamento tribal da luta do indivíduo contra a morte e pela vida. Paralisações, panfletagens, debates acalorados e coisas do tipo são outras tantas sublimações da guerra, são ações políticas.

O esporte também é uma sublimação da guerra. Através de um ritual formalizado, por regras convencionais e aceites pelos competidores, chega-se a um resultado final, a uma vitória simbólica que não extermina o adversário. Até aí tudo bem. Mas, neste mundo ao avesso, o esporte simplesmente se tornou mais um campo de batalha. A violência dentro e fora dos estádios, ginásios e circuitos é coisa que dispensa comentários. Mas há mais.

Se o esporte já não substitui a violência, agora é a violência que se transforma em esporte. Um dos mais avançados ramos da matemática, nos dias de hoje, se chama, justamente, Teoria dos Jogos. Nela, estudam-se todos os possíveis desdobramentos de decisões em situações de conflito, como no famoso “dilema do prisioneiro”. Cedo os Estados, sobretudo os líderes dos antigos blocos capitalista e socialista, logo utilizaram a teoria para antecipar os passos políticos do oponente. Porém, já antes disto, generais calculavam suas movimentações, ataques e recuos como lances numa partida de xadrez, inclusive determinando de antemão o número de jovens vidas militares a serem sacrificadas nestas estratégias de gabinete.

Eis onde entram as pipocas. Para desagravar este mundo sem conserto, a solução mais indicada é começar pelo mais simples. Diziam os romanos: “rindo, corrigem-se os costumes”. A paz sorri, e quem sabe rir e fazer rir é um pacificador por definição. Do sublime ao ridículo há um só passo, já dizia Molière; na contramão, ouso acrescentar, a distância é a mesma. Pipocas não machucam, não danificam equipamentos públicos, não congestionam o fluxo de pessoas, não sonorizam ruidosamente arredores de escolas e hospitais. Pipocas não deixam mágoas, como palavras injuriosas soltas ao vento no calor da hora. A serenidade imperturbável de quem não abusa de suas razões; de quem calma, mas insistentemente impõe seus argumentos na forma silenciosa do protesto simbólico, uma tal serenidade é capaz de quebrar grandes cadeias de violência. Quem sabe calar está pronto para o diálogo, e é do diálogo que nasce a ação conjunta, essência e fim da Democracia. A violência resulta da incapacidade de ouvir e falar. Aquele que agride grita com os seus atos, aquele que grita agride com suas palavras. Que reaprendamos a arte de não levar a sério tudo o que pode ser remediado ou desfeito, e de evitar atos irremediáveis. Ao vencedor, as batatas. E ao perdedor, as pipocas.  

Escrito por Thiago El-Chami às 15h02
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  • Precaução
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  • Antes que você mesmo se interrogue
    Pelo que há sobre a Terra à luz do Sol
    Que meça altura, peso, litro ou mol
    Que peça pão, salsicha ou hot-dog
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  • Antes que a sua memória, enfim, derrogue
    Cartão corporativo e Ivo Cassol
    CPI, IOF, IR, PSOL
    Ou que a taxa de juros se prorrogue
  •  
  • Antes que o Romário não mais jogue
    Que o terceiro mandato, em suma, vogue
    Ou que exploda o consumo do Etanol
  •  
  • Se previna, e comigo dialogue
    Dê uma breve passada no meu blog
    Thiago El-Chami, enfim, está no Uol

Escrito por Thiago El-Chami às 14h31
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